Seis anos após a realização do primeiro vestibular indígena, a Unicamp avança na implementação do “Projeto Sollar Rio Negro”, uma iniciativa pioneira que está levando energia fotovoltaica para comunidades indígenas da Amazônia. O projeto, idealizado pelo estudante indígena Arlindo Baré, representa uma poderosa confluência entre conhecimento tradicional e ciência moderna, preparando as condições para uma transição energética justa e ambientalmente adequada na região do Rio Negro.
O cenário: São Gabriel da Cachoeira e a necessidade energética
São Gabriel da Cachoeira, conhecido como “Cabeça do Cachorro”, é o terceiro maior município brasileiro em extensão territorial e possui a maior porcentagem de população indígena do país, representando 24 povos diferentes com quatro línguas cooficiais além do português. Na região amazônica, aproximadamente 1 milhão de pessoas não têm acesso a energia elétrica, enquanto milhares de famílias dependem de geradores a diesel – equipamentos caros, poluentes e de logística complexa que fornecem energia apenas em horários limitados.
A primeira turma de multiplicadores indígenas
No início de outubro, o projeto alcançou um marco significativo com a formatura da primeira turma do Centro de Aprendizagem Indígena para a Transição Energética Justa. A iniciativa, que foi apresentada na COP30 em Belém, capacitou 41 indígenas que atuarão como multiplicadores na implementação, instalação e manutenção de sistemas de energia solar fotovoltaica em suas comunidades.
O professor Luiz Carlos Pereira da Silva, coordenador do programa Campus Sustentável da Unicamp, relata que a demanda superou todas as expectativas: “Alguns dos que vieram para o curso viajaram cinco dias no rio até chegar a São Gabriel. Para voltar para casa, outros cinco dias. Ouvimos relatos de gente que não veio porque só a viagem de ida poderia demorar mais de 10 dias”.
Metodologia inovadora: etnoengenharia e adaptação cultural
Um dos aspectos mais revolucionários do projeto é a metodologia desenvolvida, que integra a etnoengenharia – aplicação da engenharia considerando os conhecimentos e realidades socioculturais das comunidades tradicionais.
Arlindo Baré, idealizador do projeto, explica que foi necessário criar analogias compreensíveis para conceitos técnicos complexos:
- Dimensionamento: Comparado ao cálculo necessário para uma plantação de mandioca que será transformada em farinha
- Comissionamento: Relacionado ao ensino tradicional da pesca com caniço e anzol apropriado
- String box: Simplificado como “sisteminha de segurança”
“Os homens brancos adoram inventar palavras difíteis”, brinca Baré, demonstrando como o projeto reconcebeu o ensino técnico para torná-lo acessível.
Diálogo de saberes: quando a ciência indígena complementa a tecnologia
O projeto promove um verdadeiro diálogo entre conhecimentos. Em um episódio emblemático, os indígenas questionaram o uso de bases plásticas nos equipamentos: “Não queremos esse lixo de plástico por aqui. Será que não conseguimos substituir isso por madeira?”.
Essa provocação levou à integração da etnoengenharia, utilizando madeiras locais como a acariquara, cuja durabilidade é conhecida através de saberes tradicionais transmitidos por gerações. “Como é que nossos avós faziam para saber se uma madeira duraria 20, 30 anos? Esse é um ensinamento que nos foi transmitido ao longo de gerações”, explica Baré.
A jornada de Arlindo Baré: do vestibular indígena à realização de um sonho
O “Projeto Sollar Rio Negro” nasceu da determinação de Arlindo Baré, um dos mais de 600 inscritos no primeiro vestibular indígena da Unicamp em 2018. Baré já planejava ser engenheiro elétrico e sonhava voltar ao território Cué Cué Marabitanas, no alto Rio Negro, levando energia limpa para as comunidades.
O projeto começou como uma iniciação científica na disciplina “Grandes Temas da Atualidade: Direitos Humanos, Tecnologia e Sustentabilidade” e evoluiu para uma linha de pesquisa que integra doze estudantes indígenas de cinco etnias diferentes.
Protocolos indígenas e consulta às comunidades
Diferente de projetos convencionais, o “Sollar Rio Negro” seguiu rigorosamente os protocolos indígenas definidos pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Baré explica: “Não é porque sou indígena que posso chegar às comunidades da região e dizer o que elas têm de fazer. É preciso ouvir o que elas querem”.
O processo incluiu consulta direta às comunidades, diálogo com pajés e líderes indígenas, e a realização do 1º Encontro Internacional de Pesquisadores Indígenas, que contou com a participação de lideranças como o Cacique Raoni e Aílton Krenak.
Um modelo para a transição energética justa
O Projeto Sollar Rio Negro representa muito mais que a instalação de painéis solares – é um modelo inovador de transição energética justa que respeita e integra os saberes tradicionais. Ao formar multiplicadores indígenas e adaptar a tecnologia às realidades locais, o projeto garante autonomia e sustentabilidade para as comunidades amazônicas.
A iniciativa demonstra como as universidades podem atuar como pontes entre conhecimentos, criando soluções que são técnica e culturalmente apropriadas. Como resume Baré: “A tecnologia do homem branco pode dialogar com a etnoengenharia”, criando um caminho verdadeiramente sustentável para o futuro energético da Amazônia.
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